As origens da Medicina Ayurveda e o Tantra

Pesquisas arqueólogicas, antropológicas e sociológicas das últimas décadas envolvendo tanto pesquisadores orientais quanto ocidentais colaboraram para o surgimento de uma nova perspectiva sobre a história e a prática da Medicina Ayurveda no subcontinente indiano - onde hoje se encontram Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Butão, Sri Lanka e Maldivas - que nos revela um universo muito mais amplo em sua essência do que aquilo que comumente é defendido pelas escolas hindus ortodoxas de transmissão dos saberes ayurvédicos. 

Historicamente, o Industão, conceito regional anterior ao subcontinente indiano, era mais amplo e incluía toda a região ao sul da Ásia Central, entre o Irã e a China. Assentada na grande planície Indo-Ganges a região é considerada o principal centro de poder da Índia, uma vez que foi onde se desenrolaram as histórias das grandes dinastias imperiais indianas. Suas favoráveis condições climáticas e solo fértil a tornou uma das regiões mais populosas do Planeta, sendo berço e lar de diversas culturas e palco de riquíssima história. Região de passagem de inúmeros povos e de múltiplas incursões foi durante séculos uma região estratégica e ponto de encontro da Rota da Seda, percurso chave para a troca de mercadorias e intercâmbio cultural.

Dentro deste contexto várias linhagens e escolas que evoluíram no sul da Ásia nos últimos cinco mil anos influenciaram o sistema de saúde que hoje conhecemos como Medicina Ayurveda. Muito além e anterior aos tratados védicos uma grande variedade de linhas de pensamento e experiência contribuiram para uma posterior sistematização desta medicina, sendo os mais importantes: o Tantra Antigo de raízes indígenas, o Tantra Medieval, o Yoga, o Budismo, o Jainismo, os Siddhas, os ascetas nômades (os Sramanas) e por final as influências externas provenientes das regiões vizinhas. Tanto o complexo e diversificado sistema do Yoga quanto as filosofias budistas e jainistas são também essencialmente de origem tântrica.  

Segundo o pesquisador e professor S. K. Ramachandra Rao, autor da obra Encyclopedia of Indian Medicine, a medicina profissional na India tem quatro linhas maiores de desenvolvimento que foram originadas de raízes tântricas em um passado remoto. Duas delas são coletivamente vistas como um conhecimento integrado ao corpo védico, ou seja, foram incorporadas. São elas: Caraka, o tratado de medicina interna, e Susruta, o tratado de medicina cirúrgica. A terceira linha é um sistema de alquimia terapêutica conhecida como Rasavaidya (a escola Rasayana) que se desenvolveu de forma independente e manteve muito contato com outras culturas como a árabe, a persa e a chinesa. Já a quarta linha são as escolas Siddhas, dentre as quais se destacam os Rasa Siddhas e mais especialmente os Natha Siddhas - grupos que se sobrepuseram aos demais por serem os transmissores de ampla gama de ensinamentos yóguicos, e alquímicos, de origem tântrica.   

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